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Mel orgânico consagra o Piauí como maior exportador nacional de mel do Brasil

Brasil destaca-se pela qualidade na produção do alimento que valorizou 70% com a pandemia

07/06/2022 às 10h35
Por: Danielle Santoro
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Foto: Bianca Ackermann
Foto: Bianca Ackermann

Por Luiza Müller

A pandemia de Covid-19, com todas as tragédias que provocou, criou um efeito colateral talvez inusitado na produção agrícola do Nordeste, em especial na apicultura. Um conjunto de fatores fez com que o mercado internacional passasse a valorizar como nunca o mel brasileiro. Entre os produtores nacionais, o destaque é para o Piauí, que responde por mais de um quarto de toda a exportação do produto. Os dados consolidados no volume de mel produzido no Brasil indicam uma expansão considerável pelo menos desde 2016. Naquele ano, o País registrou uma produção total de 39.722 toneladas do produto – volume que saltou para 51.557 toneladas em 2020. A produção de 2021, no entanto, ainda está sendo contabilizada pela Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel).

Em parâmetros regionais, a região Sul abriga os dois estados com maior produção de mel. De acordo com o Atlas da Apicultura no Brasil, elaborado pela Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A), os três estados da região responderam por 38% da produção total em 2020, com o Paraná no topo do ranking, representando 15% do montante, seguido pelo Rio Grande do Sul (14%). A maior parte da produção brasileira é destinada à exportação. Em 2021, 47.190 toneladas (3% a mais que no ano anterior) foram para outros países, especialmente Estados Unidos e Alemanha, que respondem, respectivamente, por 71% e 13% das compras. No entanto, o dado mais expressivo é o aumento do faturamento anual da exportação de mel natural. Em dez anos (de 2011 a 2021), a receita com as vendas externas do produto praticamente duplicou (de US$ 70,9 milhões para US$ 163,3 milhões). Esses resultados refletem o valor que os estrangeiros estão dispostos a pagar pelo nosso mel. O quilo do produto valorizou praticamente 70% no mercado externo, passando de US$ 1,97 para US$ 3,33.

No gosto dos estrangeiros

De acordo com Renato Azevedo, diretor da Abemel, houve um crescimento na demanda pelo mel devido à pandemia, valorizando o produto. Mas, além disso, a produção brasileira caiu no gosto dos compradores estrangeiros. É possível explicar o avanço da apicultura nacional pela variedade de plantas nativas espalhadas pelo território nacional,  que em 2020 possuía 49.979 espécies catalogadas. Além disso, alguns fatores históricos contribuíram para a expansão do cultivo no Brasil, tal como a chegada das abelhas europeia e africana, que foram transportadas ao Brasil durante o período de colonização.

Do cruzamento destas duas espécies, surgiu a abelha africanizada, que uniu a rapidez de produção da abelha africana ao sabor agradável do mel produzido pela europeia. “A abelha africanizada é quase exclusivamente manejada no Brasil. Seu mel é muito rico, saboroso e doce, o que impressiona o mercado estrangeiro”, explica Azevedo. O vasto pasto agrícola utilizado no Brasil também é um fator de diferenciação da apicultura local, que coloca o país na quinta posição no ranking de exportadores no mundo (atrás de China, Argentina, Índia e México).

Piauí, o maior exportador de mel do Brasil

Em plena expansão, o Nordeste é a segunda região do Brasil com maior produção de mel, atrás apenas dos estados do Sul. Em 2020, os nove estados da região representaram 37,51% do volume produzido em território nacional. O Piauí e a Bahia foram os principais polos de apicultura, compondo, respectivamente, 11% e 10% do total regional. Apesar de ser a segunda região com a maior produção de mel do Brasil, o Nordeste abriga o estado com maior índice de exportação: o Piauí. De acordo com a Secretaria Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, em 2021 o estado foi responsável por 25,8% das exportações totais, com faturamento de US$ 42,1 milhões.

A Pesquisa da Pecuária Municipal – PPM 2020, realizada pelo IBGE, indica que os municípios de São Raimundo Nonato e Picos, localizados no Piauí, estão entre os dez maiores produtores nacionais de mel. Os resultados positivos apresentados pelo Nordeste estão atrelados ao sucesso da produção de mel orgânico brasileiro, que atinge até 90% da produção comercializada no mundo. Desse modo, o Piauí, que possui certificação orgânica do produto, destaca-se entre os maiores produtores e exportadores nacionais de mel orgânico. “A Europa e os Estados Unidos praticamente não conseguem produzir mel orgânico, uma vez que que a produção é altamente mecanizada e há abundância do uso de defensivos agrícolas. Isso nos dá uma grande vantagem”, afirma Renato Azevedo, da Abemel.

Em contraponto com produtores estrangeiros, o Brasil mantém a excelência da produção orgânica. Segundo Ana Lucia Saad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A, há alguns motivos que explicam esse êxito. “Nosso mel é produzido em condições especiais, uma vez que ele é majoritariamente cultivado em áreas de vegetação nativa. Isso, atrelado à falta de uso de inseticidas,  faz com que seja considerado orgânico e de alta qualidade.”

Perspectiva de expansão e tecnologia

Apesar do crescimento exponencial nos níveis produtivos de mel, seria possível expandir ainda mais a produção por meio da cooperação harmônica entre apicultores e agricultores. Segundo Ana Lucia Saad, a parceria seria benéfica para ambas as partes: “Vários produtos agrícolas são dependentes – em maior ou menor medida – da polinização da abelha. Temos como exemplo a melancia, melão e laranja que dependem das abelhas para ter produtividade. Assim, com a convivência entre agricultores e apicultores, é possível enxergar uma situação ganha-ganha, na qual ambos são beneficiados.” Além dessa possibilidade, a diretora-executiva da A.B.E.L.H.A vê oportunidade na profissionalização dos apicultores, com o cumprimento de regras apícolas e restauro de áreas florestais de espécies cruciais para o alimento das abelhas.

Com a missão de profissionalizar o ramo no Nordeste, a startup alagoana Beeva compreende a importância de disseminar as práticas de manejo consciente e especializado entre apicultores da região. Segmentada em três unidades de negócio, a empresa nasceu com o intuito de fomentar o desenvolvimento sustentável da apicultura no semiárido e, atualmente, participa do programa de Scale-up da Endeavor Brasil, que foca na aceleração de negócios promissores.

Entre as frentes da startup, estão o Instituto Beeva, que tem como missão contribuir e estruturar a cadeia produtiva da região; a Unidade de Referência Tecnológica (URT), que promove pesquisas de técnica de manejo agrícola, aptas para aproveitamento do Instituto; e, finalmente, a foodtech, que permite o escoamento da produção gerada pelo desenvolvimento do campo. Os produtos comercializados pela empresa abrangem os mais diversos frutos da apicultura, tal como mel, pólen e própolis, disseminados em mais de 700 pontos de venda ao redor do Brasil. Além do comércio interno, a empresa ganha participação em novos mercados. Em 2021, produtos da empresa conquistaram espaço no mercado chinês, tendência que deve se repetir nos Estados Unidos e Oriente Médio ainda neste ano. 

Segundo Jatyr Oliveira, fundador e CEO da Beeva, o ramo da apicultura ainda não é tratado com o profissionalismo que sua importância econômica e ambiental requer. “O propósito da empresa é elevar o nível da produção da apicultura. Não queremos mais trabalhar como amadores, porém, também desejamos preservar a identidade do produto, mantendo as características da região e de florada da qual o produto é proveniente”, explica. Com esse propósito, o Instituto Beeva fomenta projetos locais, tal como mapeamento e desenvolvimento cientīfico da apicultura no semiárido. De acordo com Jannyne Barbosa, diretora executiva do Instituto, o levantamento de dados primários fornecido pelo mapeamento elucidou algumas debilidades da cadeia produtiva de Alagoas, local de nascimento da empresa e primeiro estado a ser pesquisado. “Uma das questões que se apresentaram como um desafio foi a garantia de qualidade do produto, uma vez que, diferente de outras regiões do Nordeste, tal como Ceará, que já teve uma sequência de programas de fomento por parte da política pública, estamos em outro nível de maturidade. Isso pôde ser visto ao questionarmos se os produtores faziam manejo de suas floradas, e nenhum entrevistado realizava tal procedimento, o que diminui a capacidade de diferenciação do produto”. Com o desejo de “trazer um pouco da caatinga para a mesa do consumidor”, a Beeva passou, então, a instruir os produtores acerca das técnicas de manejo de florada, que conservam as características e sabores primordiais da região. Desse modo, a qualificação da cadeia produtiva impulsiona a força do produtor local, que vê o valor agregado de seu negócio subir. 

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